segunda-feira, 1 de julho de 2013

Leito do amor


Lembro-me como se fosse hoje, a cada passo meu era equivalente a uma melodia, a sensação era de que o mundo parava quando o vento batia no meu cabelo e acidentalmente me deixava ainda mais bonita. O sol sorria com a minha aparição, até a chuva era delicada ao cair sobre o meu corpo. Elogios já me eram comuns e não me espantava quando um homem me abordava tentando dizer alguma coisa sobre minha beleza, mas as palavras pareciam pequenas para o que eles tentavam expressar.
Era alvo de inveja de todas as mulheres, já que elas acreditavam que eu poderia ter qualquer homem que eu desejasse. E é aí que meu conto de fadas se transforma. Todos eram tão hipnotizados com o que viam que se esqueciam de que aquilo era apenas a pontinha do Iceberg, eu tinha muito mais a oferecer do que um lindo rostinho, o problema é que ninguém parecia se importar com nada além da casca.
Dei-me conta que eu seria uma pessoa sem amor, o desejo apesar de atiçar não sacia. Acreditei que estava destinada ser a mais linda e ao mesmo tempo a menos feliz. Nenhum homem seria capaz de enxergar além do óbvio. Que infeliz qualidade fui abençoada, enquanto uns não achavam justo uma só pessoa ser dona de tanta beleza, eu  temia a triste solidão que me aguardava.O preço era alto demais para uma coisa que não me rendia fruto nenhum.
Quando já tinha me conformado com esse fardo, a sorte mais uma vez me escolheu e me colocou frente a frente com o homem que eu jurava ser o da minha vida. Moço de cidade grande que teve que ir morar no interior. Ouvi dizer que ficou cego por um motivo nobre, mas nunca tive coragem de perguntar. Era lindo, até os meus olhos se entreteram com a imagem que se formava diante deles. A solução para o meu problema dançava tão perto que chegava a ser engraçado, quase podia tocar. Eu disse quase.
Em meio a apresentações e conversas sem intimidade a porta se abre, quem a atravessava era a filha do amigo do meu pai, que também foi convidada para o jantar de boas vindas da mais nova família da cidade. Nesse momento, se fosse possível, todos teriam escutado os anjos recitarem palavras de amor e no final de cada parte o amém para selar os dizeres divinos.
Foi natural como ar, as duas almas se reencontraram de tal maneira como se já soubessem quem estavam procurando antes mesmo de se tocarem. Enfatizo que para acontecer tudo isso foi necessário apenas três segundos, que logo foi interrompido pela curiosidade do homem cego que eu tinha eleito como o da minha vida, querendo saber quem tinha chegado.
Naquele momento me dei por vencida, como poderia lutar contra isso? Na minha sala nasceu um sentimento que alguns morrem sem nem ter visto acontecer. Apesar da dor da desilusão estava de braços atados, não tinha recursos para fazer o tempo retroceder e ela não entrar na minha casa, ou ao menos alguma vantagem para poder lutar por ele. Com ele o meu feitiço não funcionava. Desejei ser uma das pessoas a morrer sem saber o que é o amor. Uma coisa é se conformar ser sozinha quando não sabe o que está perdendo, a outra é abrir mão por falta de alternativas de algo que você sabe que existe, mas que para as suas mãos é inalcançável.

Apesar da raiva e de todos os sentimentos considerados feios, eu não conseguia transmitir energias negativas para os dois.Você até pode não gostar da noite, mas vai ser incapaz de pedir para a as estrelas se separarem da lua. 
No dia seguinte eu sentia o peso do mundo em meus ombros, meus olhos já estavam pedindo socorro por eu os ter afogado nas minhas lágrimas. Nada fazia sentido. Procurei ajuda no meu refúgio, aonde eu acreditava nada importar além das ondas, ou seja, o mar. Parecia calmo, convidativo, entrei sem hesitar. Quando me dei conta a correnteza era forte demais, o oceano me puxava e cada momento eu ficava mais próxima da imensidão e longe da realidade. Os meus pensamentos não me perturbavam mais, respirar não era mais importante e a paz começava a me envolver.
Abri os olhos e vi azul. Pronto, o tormento da morte devia ter passado. Foi quando me dei conta que um rosto apareceu entre mim e o azul. Um anjo, claro!Até podia ouví-los cantar e no final de cada canção mencionar a palavra amém para selar os dizeres divinos. Olhei para o lado e percebi que estava na mesma praia que havia deixado parecia ter tanto tempo.
Em 24 horas conheci mais sentimentos do que eu imaginava que um coração poderia agüentar. Do amor à dor, da beira da morte para o começo da vida. Eu poderia ter deixado o mar levar a minha juventude e beleza que todos desejavam, naquela imensidão nada importava senão as ondas. Mas a sorte finalmente parou de bater na minha porta e resolveu entrar sem pedir licença, me salvando mais do que da morte, salvou a minha vida no momento em que aquele rosto apareceu entre mim e o azul do céu. No momento em que você apareceu.
Graças a você eu pude viver sessenta anos de felicidade, a minha vida não teria sentido sem o seu amor, a minha imensidão não teria as ondas para se importar. Meu velho, você até pode não gostar da noite, mas seria incapaz de pedir para a lua se separar das estrelas .Com a vida também é assim, não temos como separá-la da morte. A minha hora chegou, mas como o amor, eu seria incapaz de me separar de você.Enquanto não puder me ver estarei te esperando nas estrelas, para depois irmos juntos para a lua e vivermos do mel dela.
Não esqueça de dizer aos meninos que os amo e que a imensidão nunca está só, sempre tem uma onda, e por mais que pareça que nada mais importa, a vida junto com o acaso vai os encaminhar para verdades que provam o contrário.


Com amor, seu amor.

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