segunda-feira, 1 de julho de 2013

Capoeira, rasteira e encanto


Para uns capoeira é luta de preto, coisa de vândalo, dança de escravos. Para mim a capoeira é amor, amor à primeira vista. Ainda lembro daquele som do atabaque que me fez chegar mais perto. Ouvi a voz de uma mulher cantando, e o que ela cantasse os que tinham ginga no pé respondiam, e respondiam em coro. Mortal, meia lua, martelo e macaco.Parecia que sabiam voar. Era um espetáculo de energia comandado pelo choro do berimbau, pelo batuque do atabaque, pela voz daquela capoeira que fez me apaixonar, pela arte que me fez gingar.
Sinalizado pelo som dos instrumentos a roda estava no fim, o mestre falou “iê” e na mesma hora houve silêncio para dar atenção ao que o capoeirista ia dizer. Ele falou sobre quase tudo que senti naquele momento. Comentou sobre a energia da roda, agradeceu aos escravos por terem deixado um presente para o Brasil, falou dos mestres que se foram, citou a camaradagem e o respeito que são essenciais nessa dança de gladiadores. Ele também parabenizou cada discípulo que já tinha tempo de capoeira o suficiente para merecer tal reconhecimento. Foi quando virou para a dona da voz da roda e disse que aquela era Aidê, a negra dos olhos verdes que cantou para a luta de camaradas acontecer.
Com o cabelo cacheado amarrado, top preto, calça branca e uma corda azul na cintura, a capoeirista sorriu sem jeito ao receber carinho por ter emprestado sua voz. Podia ser poesia de apaixonado, mas aquela vestimenta caia tão bem na negrinha que seria um crime pedir para ela tirar seus pés do chão e colocar um salto alto.
 Estava tão atônito que me dei ao luxo de achar que aqueles olhos verdes tinham me enxergado. Pude sentir o calor do seu olhar me mirando quase que sem querer. Que pretensão a minha achar que eu era o alvo da atenção de Aidê.
Paixão é assim: Uns  simplesmente a deixam passar, outros se deixam levar por ela, e apenas poucos, os que têm coragem, resolvem correr atrás, vivê-la. Paixão nem sempre vira amor, mas ainda não conheci um amor que não tenha sido paixão. Entrar para a capoeira me parecia a desculpa ideal para ficar perto de Aidê.
No dia seguinte estava eu, às sete , de calça branca pra aprender a dar mortal. Pronto para surpreender a negrinha. O mestre me cumprimentou e me apresentou ao grupo, disse que a família agora tinha mais um novo integrante. Assim que o alongamento acabou eu perguntei como eu poderia treinar os saltos. O meu mestre colocou a mão no meu ombro e disse para eu ir devagar, que para andar é preciso saber engatinhar. Dessa forma ele me passou o básico da capoeira. Aprendi a gingar, a esquivar, passar os golpes mais básicos, e claro, o caminho da casa de Aidê. Quando o treino terminava, eu fingia que a casa de Aidê era caminho da minha só para ficar um tempinho a mais conversando com ela. Não que eu conseguisse falar muita coisa, a vergonha não me permitia, mas tudo o que me interessava já estava ali, caminhando na mesma direção que eu.
Foi quando ganhei meu nome de guerra, deixei de ser Rodrigo, passei a ser chamado de Girafa. Não pela minha altura, mas quem já viu girafa nascer sabe que ela não engatinha, já nasce andando. Meu encanto por Aidê era confundido por dedicação a capoeira. Em pouco tempo estava surpreendendo muita gente, menos quem eu esperava que me olhasse diferente.
Chegou o dia que Aidê passou a dispensar minha habitual companhia de volta para a casa. Essa negrinha tinha uma criatividade incrível para desculpas esfarrapadas: Dormir na casa da avó, ter que passar no mercado, ajudar o mestre a guardar os instrumentos. Cada dia era um compromisso que a impedia de fazer o caminho de casa.
Dizem por aí que no amor não adianta nada ser rei ou doutor, que a dor te pega de jeito seja você quem for. A maior rasteira que um capoeirista pode levar é a do coração, esse é o único tombo que não dá para enfeitar e fingir que faz parte do espetáculo bamba.
Na roda de mês a minha negrinha apareceu de mãos dadas com outro. Não sabia seu nome, lembro dele em algumas rodas, mas nunca imaginei que alguém seria capaz de roubá-la de mim. Esse mundo é cruel, o amor mais ainda. Todo o meu esforço para encantar Aidê foi  em vão no momento em que percebi que os olhos verdes já tinham dono, e não era eu. Para completar a tragédia eles fizeram dessa roda de mês,  a despedida: A negrinha junto com capoeira iam para outra cidade tentar a vida juntos.
Essa noite o berimbau chorou como nunca mais ouvi, essa noite deixei o coração bater mais forte, deixei a capoeira me levar. Descobri que o motivo que me fez entrar para a capoeira estava partindo, mas que a capoeira continuava ali. Entendi que não importa quantas voltas o mundo dê, ela vai continuar ali pra perceber meu lamento, comemorar minhas alegrias, escutar meu silêncio. A capoeira.

Essa paixão pela negrinha me trouxe o amor pela capoeira, enquanto a capoeira me trouxe mil motivos para me manter de pé. Nada é em vão, nenhuma dor é banal. Você pode cair, dar um sorriso e fingir que foi proposital, tropeçar e fingir que faz parte da dança. O capoeira aprende que para tudo tem uma saída, que para tudo a gente tem um sorriso. A única rasteira que realmente derruba o capoeira é o amor, essa rasteira é certeira, mas não é mortal. A queda pode até ser grande, mas enquanto o berimbau tocar, o capoeira sabe que vale a pena levantar e voltar a gingar.

Leito do amor


Lembro-me como se fosse hoje, a cada passo meu era equivalente a uma melodia, a sensação era de que o mundo parava quando o vento batia no meu cabelo e acidentalmente me deixava ainda mais bonita. O sol sorria com a minha aparição, até a chuva era delicada ao cair sobre o meu corpo. Elogios já me eram comuns e não me espantava quando um homem me abordava tentando dizer alguma coisa sobre minha beleza, mas as palavras pareciam pequenas para o que eles tentavam expressar.
Era alvo de inveja de todas as mulheres, já que elas acreditavam que eu poderia ter qualquer homem que eu desejasse. E é aí que meu conto de fadas se transforma. Todos eram tão hipnotizados com o que viam que se esqueciam de que aquilo era apenas a pontinha do Iceberg, eu tinha muito mais a oferecer do que um lindo rostinho, o problema é que ninguém parecia se importar com nada além da casca.
Dei-me conta que eu seria uma pessoa sem amor, o desejo apesar de atiçar não sacia. Acreditei que estava destinada ser a mais linda e ao mesmo tempo a menos feliz. Nenhum homem seria capaz de enxergar além do óbvio. Que infeliz qualidade fui abençoada, enquanto uns não achavam justo uma só pessoa ser dona de tanta beleza, eu  temia a triste solidão que me aguardava.O preço era alto demais para uma coisa que não me rendia fruto nenhum.
Quando já tinha me conformado com esse fardo, a sorte mais uma vez me escolheu e me colocou frente a frente com o homem que eu jurava ser o da minha vida. Moço de cidade grande que teve que ir morar no interior. Ouvi dizer que ficou cego por um motivo nobre, mas nunca tive coragem de perguntar. Era lindo, até os meus olhos se entreteram com a imagem que se formava diante deles. A solução para o meu problema dançava tão perto que chegava a ser engraçado, quase podia tocar. Eu disse quase.
Em meio a apresentações e conversas sem intimidade a porta se abre, quem a atravessava era a filha do amigo do meu pai, que também foi convidada para o jantar de boas vindas da mais nova família da cidade. Nesse momento, se fosse possível, todos teriam escutado os anjos recitarem palavras de amor e no final de cada parte o amém para selar os dizeres divinos.
Foi natural como ar, as duas almas se reencontraram de tal maneira como se já soubessem quem estavam procurando antes mesmo de se tocarem. Enfatizo que para acontecer tudo isso foi necessário apenas três segundos, que logo foi interrompido pela curiosidade do homem cego que eu tinha eleito como o da minha vida, querendo saber quem tinha chegado.
Naquele momento me dei por vencida, como poderia lutar contra isso? Na minha sala nasceu um sentimento que alguns morrem sem nem ter visto acontecer. Apesar da dor da desilusão estava de braços atados, não tinha recursos para fazer o tempo retroceder e ela não entrar na minha casa, ou ao menos alguma vantagem para poder lutar por ele. Com ele o meu feitiço não funcionava. Desejei ser uma das pessoas a morrer sem saber o que é o amor. Uma coisa é se conformar ser sozinha quando não sabe o que está perdendo, a outra é abrir mão por falta de alternativas de algo que você sabe que existe, mas que para as suas mãos é inalcançável.

Apesar da raiva e de todos os sentimentos considerados feios, eu não conseguia transmitir energias negativas para os dois.Você até pode não gostar da noite, mas vai ser incapaz de pedir para a as estrelas se separarem da lua. 
No dia seguinte eu sentia o peso do mundo em meus ombros, meus olhos já estavam pedindo socorro por eu os ter afogado nas minhas lágrimas. Nada fazia sentido. Procurei ajuda no meu refúgio, aonde eu acreditava nada importar além das ondas, ou seja, o mar. Parecia calmo, convidativo, entrei sem hesitar. Quando me dei conta a correnteza era forte demais, o oceano me puxava e cada momento eu ficava mais próxima da imensidão e longe da realidade. Os meus pensamentos não me perturbavam mais, respirar não era mais importante e a paz começava a me envolver.
Abri os olhos e vi azul. Pronto, o tormento da morte devia ter passado. Foi quando me dei conta que um rosto apareceu entre mim e o azul. Um anjo, claro!Até podia ouví-los cantar e no final de cada canção mencionar a palavra amém para selar os dizeres divinos. Olhei para o lado e percebi que estava na mesma praia que havia deixado parecia ter tanto tempo.
Em 24 horas conheci mais sentimentos do que eu imaginava que um coração poderia agüentar. Do amor à dor, da beira da morte para o começo da vida. Eu poderia ter deixado o mar levar a minha juventude e beleza que todos desejavam, naquela imensidão nada importava senão as ondas. Mas a sorte finalmente parou de bater na minha porta e resolveu entrar sem pedir licença, me salvando mais do que da morte, salvou a minha vida no momento em que aquele rosto apareceu entre mim e o azul do céu. No momento em que você apareceu.
Graças a você eu pude viver sessenta anos de felicidade, a minha vida não teria sentido sem o seu amor, a minha imensidão não teria as ondas para se importar. Meu velho, você até pode não gostar da noite, mas seria incapaz de pedir para a lua se separar das estrelas .Com a vida também é assim, não temos como separá-la da morte. A minha hora chegou, mas como o amor, eu seria incapaz de me separar de você.Enquanto não puder me ver estarei te esperando nas estrelas, para depois irmos juntos para a lua e vivermos do mel dela.
Não esqueça de dizer aos meninos que os amo e que a imensidão nunca está só, sempre tem uma onda, e por mais que pareça que nada mais importa, a vida junto com o acaso vai os encaminhar para verdades que provam o contrário.


Com amor, seu amor.

quinta-feira, 16 de maio de 2013




Mas que audácia do meu coração! Resolveu brigar com a razão, bater o pé e dizer: - Pode se fazer de difícil, ou tentar endurecer as ideias, mas tudo bem, porque eu estarei sempre aqui para desfazer toda essa bobagem.

Aquele abraço foi o suficiente. Ao me puxar para perto vi que estava apenas ocupando o meu lugar. No ar não percebi, mas mesmo que não fosse notório aos meus sentidos, as paredes sabiam que até podia não ser lua cheia, mas a noite pertencia aos enamorados.
Acordar de um sonho ruim e ter alguém para te apertar mais forte no mesmo momento, não se trata de carência, trata-se de carinho. Ah se pudesse colocar em um potinho e espalhar o que senti ao abrir os olhos.  Meu pesadelo se transformou em sonho, mal sabia que era a doce realidade. Sim, ela pode ter esse gosto.
Reconheci no seu afago a vontade, o desejo de se ter quem se tem , abraçar sem a intenção de segurar, e sim por não mais querer ficar longe. O gesto é igual, mas a forma que é percebido, ou melhor, recebido, faz com que desperte coisas que até então você nem sabia existir.
Uma vez li uma frase dizendo que as coisas tem a importância que damos. O autor que me desculpe, mas as coisas tem a importância que elas tem que ter, afinal, só as paredes sabiam da noite dos enamorados, mas ainda sim, a noite era deles.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lágrimas de Princesa




Chame o vento para levar os resquícios, os sonhos para abençoar a fé, e o tempo para curar. As lágrimas secaram, os pensamentos cessaram e a espera pela bonança não mais parece uma eternidade.
Princesa, já pode tirar a armadura e colocar um vestido esvoaçante, livre-se do peso da coroa e no lugar, se enfeite com flores. A simplicidade pode ser uma arma perigosa, e a felicidade um feitiço inquebrável. É tempo de paz.
Deixe a tristeza e mágoa no campo de batalha, para muitos a volta para casa foi dolorosa, para outros, nem chegou a acontecer.  Não prive seu povo do aconchego que eles merecem. Conceda o melhor sorriso para aqueles que lutaram por isso.
Não diminuo seu sofrimento, ser deixada pelo príncipe no altar deve ter sido constrangedor, desestimulante. Mas o exército defendeu sua honra, ganhou a guerra, só esqueceram de dar o endereço certo para os soldados, afinal, a grande batalha aconteceu no seu coração. 
Peço que não guarde rancor, as chuvas já lavaram o reino com sua água sagrada, e se me permite dizer, a causa do príncipe foi nobre. Ouvi boatos que não se tratava de acordos ou terras, ele simplesmente se apaixonou por outra. Esse tipo de coisa, quando acontece não tem o muito que fazer a não ser se entregar. Não escolhemos quem, quando,onde e como. De repente o sol não é o único motivo para nos mantermos de pé, e passar a vida ao lado de apenas uma pessoa deixa de ser sacrifício.
Olhe pela janela e encante-se com a paisagem, escute uma música e se permita dançar, deixe as pessoas presenciarem a sua alegria. E o mais importante, atente seu coração para quem te faz sorrir, pode parecer meio bobo, mas às vezes é só o desejo de te ver feliz.

Assinado, Bobo da Corte.